Quem luta não espera acontecer! Análise da greve dos trabalhadores (as) em Educação no PR

08/05/2014 03:12

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Quem luta não espera acontecer! Análise da greve dos trabalhadores (as) em Educação no PR

Por Marlei Fernandes de Carvalho, na Carta Maior

A APP-Sindicato constitui-se hoje no maior sindicato do estado do Paraná. Somos 130 mil profissionais da Educação no Estado entre ativos e aposentados(as). São 67 anos de história, de resistência e luta ao lado dos(as) trabalhadores(as). O simbólico que emerge de toda esta luta, dessa greve histórica que foi travada em diferente momentos e contextos políticos, econômicos e sociais e o grau de organicidade das ações fizeram e fazem da APP referência para toda a classe trabalhadora no estado do Paraná e do país, extrapolando o âmbito educacional.

São incontáveis mobilizações, marchas e greves, inclusive durante o período de ditadura militar. Foi e tem sido inevitável o enfrentamento às políticas capitalistas, de governos cujos projetos alinham-se as políticas liberais burguesas. O atual governo no Paraná é reconhecidamente neoliberal. Desde seu inicio, em 2010, sabíamos o quanto seria difícil estabelecer diálogo e fazer avançar a pauta dos(as) trabalhadores(as) da educação.

A força de nossa organização e em decorrência o reconhecimento histórico de setores e movimentos sociais, que legitimam a luta e a resistência da APP, fez com que, ao longo dos três anos do atual governo avançássemos no cumprimento de uma pauta favorável à categoria.

Ao contrário do que alardeia, de “choque de gestão”, o atual governo vem acumulando, desde o final do ano passado, uma crise financeira, que deixou, dentre outras coisas, viaturas policiais sem  gasolina. Em contrapartida o PIB paranaense cresceu 5% de 2012 para 2013. O aumento de receita foi considerável em igual período. Saltou de 27,83 bilhões em 2012 para R$ 32,14 bilhões em 2013, o que demonstra que não há falta de recursos para administrar o estado.

A partir do momento que o governo se recusou a cumprir uma pauta mínima em que se mantivesse  ganhos aos(às) trabalhadores(as) da educação o movimento explodiu. Não obstante, manteve uma política de perdas de direitos já conquistados como a dívida de mais de 100 milhões em atrasados referentes aos avanços nos planos de carreira, a suspensão do auxilio transporte àqueles e àquelas que estavam afastados(as) por motivo de doença, desumanizando e precarizando o salário. O diálogo sem efetividade fez com que a APP articulasse ações para a manutenção destes direitos.
 
Dentre as ações estava a hora-atividade para valer! em que durante a semana os(as) professores(as) cumpriam nas escolas mais uma hora atividade, chegando assim aos 33% previstos pela lei do Piso (Lei 11738 de 2008). Outro exemplo foi a organização de uma Marcha em Curitiba contando com mais 10 mil pessoas no dia 19 de março, chamando o governo a negociação e a estabelecer o diálogo com os(as) educadores(as) de nosso estado.

Mesmo com a articulação das ações, o governo mostrava-se reticente a negociação e fez com que a categoria em Assembleia realizada no dia 29 de março deflagrasse greve por tempo indeterminado a partir de 23 de abril.

Os dias que antecederam o inicio da greve foram intensos. A diretoria estadual e dos 29 núcleos sindicais da APP não se furtaram de correr as escolas, produzir materiais, instrumentalizar os trabalhadores(as) conscientizando-os(as) sobre a necessidade da adesão ao movimento e da recusa do governo em atender a pauta de reivindicações. A ofensiva mostrou-se exitosa.

Chegamos ao dia 23. Dia nublando, meio chuvoso em Curitiba. Milhares de pessoas reunidas em frente ao Palácio Iguaçu, sede do governo estadual, para o ato simbólico de início da greve. Além da capital atos se repetiram no interior do estado. A greve estava deflagrada. Escolas paralisadas. Professores(as) e funcionários(as) mobilizados. Mais de 70% de adesão.

O movimento intenso das primeiras horas forçou, logo no primeiro dia uma reunião de negociação com a presença do governador do estado, que até então se mostrava distante das discussões educacionais. O governo endureceu na mesa de negociação e as propostas apresentadas continuavam insuficientes. A firmeza da direção combinada pela força da greve, apesar de toda a ofensiva governamental, fez com que, não só mantivéssemos a organização do movimento, como aumentou a adesão a greve.

Concomitante ao movimento que paralisou as escolas, montamos um acampamento em frente ao Palácio do governo que diuturnamente servia de abrigo e espaço para a organização do movimento. Foram milhares de trabalhadores(as) que passaram por aquele espaço, boa parte destes se revezam para ficar as noites em constante vigília, mesmo com o frio intenso, demostrando uma organização e capacidade de luta não esperada pelos governistas palacianos que não acreditavam na resistência e luta dos(as) trabalhadores(as).

Na guerra de comunicação que se travou durante o período do movimento, novamente a APP mostrou-se mais contundente. As ações desencadeadas nas redes sociais, fenômeno recente, e no site da APP contra-argumentava o discurso oficial que era, em alguns momentos de normalidade – como se o movimento não existisse ou fosse pouco significativo –, em outros era de coação e de divisão da categoria. A contrainformação adotada foi reconhecida pela velha mídia que admitiu que na guerra de informações a APP levara a melhor.

Cinco dias após o início da greve, dia 28, estavam paralisados cerca de 90% dos(as) trabalhadores(as). Era visível a adesão da categoria ao movimento. Desde a noite anterior, articulávamos uma grande Marcha para o dia 29, que como se viu, pararia Curitiba. A força da greve e a proximidade com o grande ato do dia seguinte, forçou o governo a recuar, sair da inercia, e avançar na proposta. Uma vitória da categoria e da assertividade da direção na condução de todo o processo de negociação.

O dia 29 foi histórico. Cerca de 30 mil pessoas marchavam. Eram professores(as), funcionários(as) de escolas, estudantes, pais e mães, outras categorias de trabalhadores(as) caminhando em direção ao Palácio do governo. O mote “quem faz a luta, não espera acontecer!” estava nos banners, nas faixas, camisetas, era falado e ecoado pelos caminhantes. Foi a maior Marcha da classe trabalhadora em Curitiba. Não havia volta, o movimento mostrava-se vitorioso.

A Greve e a Marcha dos 30 mil demonstraram a força da categoria e o amadurecimento, a unidade e a organização da APP. A negociação avançou em vários itens. A Marcha despertou um sentimento em muitas pessoas de que poderia se conseguir mais. No entanto, a avaliação dos dirigentes sindicais e de vários comandos de greve é que não se avançaria mais nas negociações e que haveria uma tendência de refluxo do movimento se a greve prosseguisse, sem falar que seria necessária uma maior radicalização do movimento e evidente, em contrapartida, haveria o endurecimento do governo.

Foi esta ambiguidade que marcou a assembleia da categoria que se seguiu ao ato. Por um lado, a rua impulsionava, inflava o movimento pela continuidade. Por outro lado, as condições objetivas não eram favoráveis pela continuidade. Foi esta última posição, de suspensão da greve e manutenção do estado de greve que foi aprovada pela maioria dos presentes na assembleia. Houve descontentamento dos que defendiam a manutenção da greve.

Este descontentamento foi capitaneado por uma oposição ao sindicato cujo o modus operandi utilizado foi o da desqualificação do debate, do xingamento público, da falsa argumentação de que houve fraude no processo de votação (reconhecida pelos mesmos) e na descabida afirmação de manipulação. Não bastasse isso, houve incitação à barbárie como o fato de estudantes vinculados a oposição quererem invadir a assembleia e tencionarem para por fogo em bandeiras, camisetas e carros do Sindicato. Total desrespeito ao debate e a maior instância do Sindicato que é a Assembleia Estadual. Afinal não foi por isso que sempre lutamos? Por espaços democráticos, por instituições fortes e organizadas? A ditadura, que, infelizmente, alguns clamam hoje pode assanhar-se à barbárie.

A luta continua e continuará sempre. Ela está forte. As avaliações que chegam de muitos lugares do nosso estado dão conta desse processo. Há o sentimento de que poderíamos ir além, mas há também o sentimento maior de foi correta atitude pelo desfecho da greve. Todas as posições são respeitadas pela entidade.

O atual governo e qualquer outro governo sabe da legitimidade, diretividade e organicidade da APP, isso nos dá a garantia de que a qualquer recusa do governo haverá uma contraofensiva dos(as) trabalhadores(as) que continuam mobilizados, despertos que foram pelos dias intensos de Greve e Marcha.

Estejamos despertos(as), atentos(as), vigilantes. Que o grito ouvido na marcha dos 30 mil ecoe e rememore em nossas consciências de que a força da classe trabalhadora está na unidade. Não sucumbiremos a pantomina dos apocalípticos da barbárie, sejam eles de direita ou suposta esquerda, que fazem do quanto pior melhor e apostam no esfacelamento da classe trabalhadora. Nós que acreditamos e lutamos por esta unidade sabemos –  por que estes dias intensos de mobilização nos deram mostras disto –, que quem faz a luta, não espera acontecer!


(*) Marlei Fernandes de Carvalho é presidenta da APP-Sindicato

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